Quanto custa rechear seu Currículo Lattes?

Marcelo Spalding

Essa não é uma coluna sobre cultura, é sobre educação. Mas o que tem mais a ver com a cultura do que a educação?

Todo estudante universitário já ouviu falar do Currículo Lattes, todo aspirante a Mestre ou Doutor decerto já fez o seu e àqueles com pretensões acadêmicas é imprescindível atualizar seu Lattes pelo menos duas vezes por ano. O Lattes é critério quase universal para seleções de programas de pós-graduação do Brasil e do exterior, além de ser fundamental nas bancas de contratação de professores universitários em concursos e editais. Mantido pelo CNPq, é uma forma democrática de centralizar as informações acadêmicas de todo país, permitindo aos pesquisadores encontrar colegas de áreas afins e, a quem seleciona, avaliar a produção científica do aspirante à vaga.

Os críticos dizem que o Lattes transforma todo o esforço intelectual dos pesquisadores em quantidade, em números, simplificando e até ridicularizando uma produção eminentemente qualitativa. Ocorre que no final do Lattes há uma tabela informando quantos artigos foram publicados, quantos livros ou capítulos de livros, de quantos congressos o fulano participou. Mas até aí nenhuma novidade, se você começou a ler este texto provavelmente já sabe o que é e como funciona o Currículo Lattes. A novidade é que um bom Lattes tem preço.


Com o crescimento dos cursos de pós-graduação no Brasil e o amadurecimento da Plataforma Lattes, a corrida por "qualificação" tem sido grande, e a lógica quantitativa acaba incentivando a formação de um verdadeiro "mercado acadêmico". Já havia percebido isso ao me inscrever em um congresso, no meu caso o da ABRAPLIP, mas poderia ser de qualquer área e em qualquer lugar. Se você quer que seu trabalho seja apresentado, antes da inscrição deve enviar um resumo e aguardar o aceite. Elaborei o resumo, nas normas que exigiam, e o submeti. Em poucas semanas, um e-mail informa que o trabalho foi aprovado, e o ingênuo aqui fica feliz da vida: vai no site, preenche a ficha de inscrição, imprime o boleto, paga no banco a taxa de cento e poucos reais (há eventos de R$ 300,00, R$ 500,00, e por aí afora, especialmente se você for da área de Medicina ou Direito). No dia da minha apresentação no evento, a surpresa: havia cinco pessoas na sala: um professor e quatro apresentando trabalhos. Público para quê? Discussão para quê? Afinal, dali sairemos com um certificado (enviado por e-mail), um CD-ROM e um número a mais no Lattes!

Evidentemente, a proporção não é um por um, mas tão evidente quanto é que os congressos hoje estão inchados com dezenas de apresentações de trabalhos, e o aceite desses é uma mera formalidade. Um trabalho medíocre será aprovado se não comprometer o evento e o autor lá estará, enquanto um aluno excelente que faça um artigo excelente mas por algum motivo não possa pagar a inscrição, ah, esse não estará lá. Afinal, sai caro um bom Lattes...

Mas vamos além, afinal de contas, poucos dos que se aventuram em cursos de pós-graduação não teriam dinheiro para a inscrição de um evento desses. E a passagem? E o hotel? E férias, para quem não tem bolsa? Sim, porque se você tiver pretensão de dar aula na USP, na UFRJ ou na UFRGS, é bom sua vida acadêmica não ficar restrita a Cacimbinhas, é bom você ter ido aos eventos nacionais mais importantes da sua área, ter contatos, viajar. E não espere algum desconto especial para viagens acadêmicas por parte das companhias aéreas. Muito menos bolsas oferecidas pelos cursos de pós-graduação, a não ser em raríssimos ― e discutíveis ― casos. Afinal, sai caro um bom Lattes...

Infelizmente, não é só isso. Estávamos tão acostumados a participar de congressos e pagar por isso, estamos tão satisfeitos em aproveitar esses eventos para fazer turismo pelo Brasil (ah, claro, ninguém acha que o controle de presença nesses eventos seja muito rigoroso, né?) que nem percebemos o quão injusta é essa lógica do "pagando bem, que mal tem". Quero ir além. De uns tempos para cá, tem se tornado comum no Brasil pagar pela publicação de artigos! Sim, os artigos científicos, tão puros, tão imparciais, tão citados como referência do conhecimento pela mídia, pelos nossos professores, publicá-los também tem um preço, e bem salgado.

Ainda não havia me acontecido isso, mas uma amiga da área da Enfermagem ousou submeter seu artigo de conclusão de curso para a Revista Gaúcha de Enfermagem e, adivinhem, o artigo foi aceito para a publicação com uma condição: ela e as outras duas autoras do artigo deveriam ser assinantes da revista para essa publicação, e, claro, isso tem um custo: R$ 130,00. Cento e trinta! Fiquei pensando se já aconteceu de alguém enviar artigo e ele não ser aceito, afinal cenzinho é cenzinho...

Pensei em reclamar para a UFRGS que uma revista com seu logotipo fizesse esse tipo de coisa, mas a Universidade está em férias. Entrei em contato, então, com a Ouvidoria do Ministério da Ciência e Tecnologia, a fim de denunciar esse tipo de abuso num país e numa universidade que lutam pela inclusão acadêmica de negros e pobres. A resposta, conclusiva, me fez perceber que o Lattes realmente tem preço:

Prezado Marcelo,
A cobrança para publicação de artigos é prática frequente na área internacional, inclusive porque alguns periódicos científicos são bancados pelos próprios autores. A informação, pelos custos que envolve, resulta cara. No Brasil, esta prática ainda não está amplamente disseminada mas já é praticada, principalmente na área médica.
No caso específico, segundo sua informação, o pagamento não é propriamente pelo artigo, mas para que ela se torne sócia da revista. Sugerimos que consulte a política editorial do periódico, que deve estar impressa na própria revista ou no seu site. A política editorial informa quais são os critérios utilizados para seleção e publicação de artigos.
Nada obstante, caso ela não concorde com o critério, pode submeter seu artigo a outros periódicos que não exijam contrapartida financeira. Seguramente na sua área de especialização existem vários em todo o Brasil.
Atenciosamente,
Ouvidoria-Geral do MCT

Indignado, entrei em contato com minha orientadora de graduação, uma professora muito amiga, Doutora em Comunicação. E aí a professora me lembrou de que quando terminou seu Doutorado, recebeu pelo menos cinco cartas a parabenizando e a convidando a publicar seu belíssimo trabalho em livro. Mas, é claro, um livro acadêmico é sempre importante e, afinal, sai caro um bom Lattes. Caro quanto? Cinco mil reais.

Não posso concordar com essa lógica, e me surpreende que entidades como a UNE fiquem mais preocupadas com o preço da passagem de ônibus do que com esse tipo de descalabro. Não é novidade alguma que a seleção para os cursos de pós-graduação passam por critérios pessoais, políticos, nada objetivos, e no momento que se cria uma ferramenta para tornar a escolha um pouco mais democrática, admitiremos que essa ferramenta sirva para privilegiar os estudantes com mais poder aquisitivo? Sem demagogia, dessa forma algum pobre que entrou na universidade pelas cotas ou pelo Pró-Uni conseguirá ingressar em Mestrados e Doutorados a partir desse critério mercantilista?

Para mim, o caso é muito grave. São essas pessoas com Lattes recheados que irão lecionar nas universidades federais e particulares (e há aos borbotões), são elas que irão formar os futuros médicos, advogados, jornalistas, professores? E quais os valores que essa geração acadêmica tem a passar? O valor do "quanto mais, melhor", do "quem pode mais, chora menos"? E essa realidade, todos sabem, se reflete desde o Ensino Fundamental, onde as creches e escolas públicas são cada vez mais abandonadas e as particulares proliferam e profissionalizam-se. Mas aí já é assunto para outra crônica...

Disponível em: http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2749

Entrevista sobre Carreira em Arquitetura de Informação

Entrevista concedida a Anderson Batista da UFMG (04/09/2009)


Anderson - Sei que você é arquiteto de informação, consultor em gestão da informação, autor do blog "Bibliotecário Virtual" e ainda membro efetivo da Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento (SBGC). Minha pergunta é: como surgiu o interesse pela arquitetura da informação, especificamente?


Bibliotecário Virtual - Comecei a me interessar por arquitetura de informação através de um artigo da professora Úrsula Blattman tratando de AI em 2007 (foi a primeira vez que ouvi falar da área) depois disso comecei a acompanhar o Blog de Katyusha Souza (Bibliotecária e Arquiteta de Informação) Autora do Abrindo Espaço (katyushasouza.blogspot.com)

A partir daí não parei mais de estudar o tema. Em 2008 comecei a escrever minha monografia sobre Sistemas de Informação empresariais, mas percebi que o trabalho não passava de "um trabalho de administração feito por um bibliotecário" nada de especial, e como já conhecia AI por hobby resolvi juntar as duas coisas e criar um trabalho diferente que focasse o nosso papel na web.


Anderson - Você já disse algumas vezes que os currículos de Biblioteconomia encontram-se atualmente engessados, o que impede que, muitas vezes, os estudantes tenham um leque maior de perspectivas profissionais com relação ao futuro. Em sua opinião, qual deve ser a atitude que nós, enquanto estudantes devemos tomar diante desse cenário tão "engessado"?


Bibliotecário Virtual - Na verdade eu mudei um pouco essa opinião. Os currículos de Biblioteconomia não estão tão engessados assim, eles ainda não são o que podemos chamar de ideal, mas, acredito que nosso grande problema é uma falta de direcionamento da profissão de bibliotecário para atuação na web, o conhecimento adquirido na faculdade é justamente o que precisamos, mas não somos orientados sobre como aplicá-los na internet. Lógico que disciplinas focadas em AI, Ergonomia e Usabilidade fariam diferença, no entanto, acredito mais numa mudança de postura dos profissionais e pesquisadores.


Anderson - Há alguns arquitetos da informação que enfatizam uma relação próxima entre Biblioteconomia e Arquitetura da Informação, outros já dizem que as duas são a mesma coisa, outros já não reconhecem tanta semelhança. E você, o que acha disso?


Bibliotecário Virtual - Como faço parte dos dois universos, sou bibliotecário por formação e atuo como arquiteto de informação na Avansys, o que posso dizer é que a Arquitetura de Informação não exclui a Biblioteconomia nem o contrario, considero que falta é uma integração maior entre as áreas. Vale salientar que os pais da AI (Peter Morville e Louis Rosenfiled) são ambos bibliotecários fundadores da Argus. Foram eles que definiram as bases da Arquitetura de Informação que temos hoje no mundo. Eles próprios chamam atenção de que os conhecimentos advindos da Biblioteconomia são muito fundamentais para a AI. Para mim, temos áreas complementares com um objeto de estudo em comum: a informação

Anderson - Entre os "pré-requisitos" para se tornar um arquiteto da informação nota-se a exigência de conhecimentos sólidos de informática, programação entre outros. É preciso ser um expert em computadores para ser um bom profissional de AI? Há um perfil para o futuro profissional?


Bibliotecário Virtual - Realmente algumas instituições desejam que o arquiteto de informação seja um tipo de super-profissional com conhecimento em todas as áreas: do planejamento e concepção, passando pelo design e montagem, redação e programação. No entanto isso não é regra. Acredito que pelo fato da AI ser uma área relativamente nova no Brasil, muitas agências ainda não compreendem claramente o que é e o que faz um arquiteto de informação. Para ser um bom AI não é preciso ser um expert em computadores, mas, um heavy user da internet, ser curioso e gostar de estudar. Acredito que nos próximos anos teremos mais cursos focados na área e metodologias mais sólidas, e sobre o perfil para um futuro profissional acredito que exista sim, geralmente os AIs freqüentam listas de discussão, participam de redes sociais para troca de informações e referências, curtem a interação e são bastante preocupados com o usuário. Enfim, vivem na e para a web.


Anderson - Em uma de suas apresentações sobre AI em um evento de Ciência da Informação, você citou alguns percalços que todos os arquitetos enfrentam.Quais seriam alguns deles?


Bibliotecário Virtual - Assim como em todas as áreas estamos expostos a todo tipo de desafio, e no caso específico dos bibliotecários, precisamos vencer a resistência com o uso da TI e mudar a imagem caricatura de que somos profissionais que vivem entre livros empoeirados.

No geral, os arquitetos de informação (independente da graduação que possuam) ainda estão descobrindo seu mercado de trabalho e mergulhando em métodos muitas vezes empíricos e baseados na expertise do profissional e isso é um grande desafio, conquistar um mercado em expansão e viver uma situação nova a cada dia.


Anderson - Há uma lista de discussão sobre AI no Brasil, e me parece ser uma das únicas em português que tem, por sinal, contribuído muito para a comunicação entre os profissionais. Como o profissional se recicla dentro da profissão?


Bibliotecário Virtual - As listas de discussão são importantes canais de comunicação e compartilhamento de conhecimento, mas, para se manter atualizado não basta fazer parte das listas e preciso correr atrás e buscar novos conhecimento em outras áreas, discutir e publicar suas práticas e métodos para que outros profissionais tenham acesso. Costumo me atualizar pelo Orkut, pelo Twitter e também em blogs e sites de outros países. O inglês e/ou o espanhol não podem ser encarados como barreiras intransponíveis, muito materiais se encontram nessas línguas.


Anderson - Em sua opinião, o mercado para o arquiteto da informação está restrito a alguma região ou estado, ou como em outras, as vagas estão bem distribuídas?


Bibliotecário Virtual - As vagas não são bem distribuídas, geralmente temos uma concentração muito grande de profissionais em estados do Sul e Sudeste, visto que muitas empresas e agências têm suas matrizes situadas nessas localidades. Infelizmente na Bahia temos poucas empresas que possuem profissionais dedicados exclusivamente à arquitetura de informação, mas a tendência é que a região Norte e Nordeste se desenvolva no mercado de web. É uma tendência nacional.


Anderson - Em sua opinião, qual seria a melhor opção para se conseguir alcançar conhecimentos sólidos sobre AI: um curso de pós-graduação (especialização) ou um mestrado?


Bibliotecário Virtual - Sim e não, acredito muito na Gestão do Conhecimento, por isso digo que é desejável que se tenha um curso de pós-graduação lato senso ou stricto senso, mas não vejo como uma condição imprescindível para o aprofundamento de conhecimento. O que Henry Ford, Walt Disney, Machado de Assis, Woody Allen e Bill Gates têm em comum? Todos foram autodidatas e desenvolveram seus conhecimentos através da força de vontade e se tornaram ícones. Muitas vezes pode-se ter uma graduação ou uma pós sem que isso signifique garantia de sucesso ou garantia de solidez de conhecimento, tudo vai depender dos objetivos, da vontade e se de fato gostamos do que fazemos.


Anderson - E por fim, o que você gostaria de falar para os estudantes - não somente de Biblioteconomia- que se identificaram com a área e gostariam de seguir na profissão?


Bibliotecário Virtual - É bastante comum vermos graduandos ou profissionais recém-formados se sentindo inseguros quanto a sua formação para atuar na Sociedade da Informação, mas o que posso dizer é que todos nós passamos por isso e quem ainda não passou certamente passará. O importante é encarar os desafios que se apresentam sem medo de errar, tudo faz parte de um aprendizado, não nascemos médicos, engenheiros, nutricionistas, matemáticos, bibliotecários, psicólogos etc. Aprendemos a sê-los... Não tenham medo do mercado, acreditem no que Obama diz: Yes! We Can (Sim! Nós Podemos) e acreditem de fato nisso.

A força está com vocês! O que seria do mundo sem os novos profissionais para oxigenar as idéias?


Anderson - Agradeço a atenção e espero continuar mantendo contato com você.

Um abraço e muito obrigado!



Siga-nos no Twitter: @andersonbiblio ; @rafaelmarinho71


3° EBAI - Encontro Brasileiro de Arquitetura da Informação

Olá caros colegas Bibliotecários, Arquitetos de Informação, Designers de Interação, gostaria de divulgar a 3ª. edição do EBAI – Encontro Brasileiro de Arquitetura da Informação - que acontecerá nos dias 02 e 03 de outubro de 2009.
Este ano o local do evento será em São Paulo no auditório da Universidade Anhembi-Morumbi [Rua Casa do Ator, 294 - Itaim Bibi].

Para maiores informações acesse: http://www.congressoebai.org/index.php/home

GED, taxonomia e ontologia nas empresas

O gerenciamento eletrônico de documentos, que hoje controla o fluxo de trabalho em grandes empresas, organiza e classifica a informação com os mesmos conceitos usados por bibliotecas milenares.

O gerenciamento eletrônico de documentos é um conjunto de métodos que permitem gerar, controlar, armazenar, compartilhar e recuperar informações existentes em documentos através de um sistema digital.

Com o GED nós podemos tramitar documentos e informações e atribuir permissões e perfis de competências. Por exemplo: uma empresa de engenharia que lida com plantas em grandes formatos (A0, por exemplo) pode digitalizá-las, criar um controle de versões e compartilhá-las. Deste modo poderá, de acordo a necessidade, gerar cópias controladas desse documento.

Imagine como uma empresa petroquímica, com centenas de dutos e encanamentos por onde passam toneladas de produtos, precisa de plantas detalhadas e atualizadas desta estrutura. O GED reduz custos e favorece o compartilhamento de informações. Pode, por exemplo, gerar cópias. Mas como funcionam essas cópias?

Para controlar a integridade da informação, apenas usuários com perfis específicos podem alterar e imprimir tais documentos e para isso existem etapas:

  • 1. É feita uma proposta de alteração ou criação do documento, norma etc.;
  • 2. A proposta é analisada e são feitas críticas;
  • 3. A pessoa designada para tal começa a elaborar o documento;
  • 4. O documento passa pelos avaliados e comissão técnica;
  • 5. Se aprovado ele passa pela direção ou presidência que irá homologar
  • 6. Após a homologação o documento é liberado no sistema e a versão anterior é substituída.

Workflow é registrado

Em se tratando de documentos legais, as imagens precisam ser rasterizadas. Ou seja, é criado um bitmap que não permite a manipulação por vetores (vetorização). Deste modo temos uma imagem teoricamente impassível de ser fraudada.

Todo o trâmite do documento é registrado no sistema: data e hora da atribuição, envio, saída para homologação etc. Por isso os sistema de GED trabalham com workflows e controlam o fluxo de trabalho, mediante permissões e competências.

E para que os documentos eletrônicos sejam recuperáveis é preciso criar esquemas de indexação, com levantamento de termos e taxonomias e, em caso mais complexo, o uso de ontologias.

Taxonomia

De forma mais genérica, podemos dizer que taxonomia é uma classificação. Porém a taxonomia trata de uma estrutura de organização baseada na hierarquia - vai do geral para o específico, do maior para o menor, do menos complexo para o mais complexo.

Meios de Transporte > Terrestres > Automóveis > Carros

É o conceito da Biologia para a classificação dos seres, em Reino, Filo, Sub-filo, Classe, Sub-classe, Ordem, Sub-ordem, Gênero, subgênero e espécie

Esse conceito é também utilizado amplamente na Biblioteconomia e na Ciência da Informação para a gestão da informação dentro de sistemas de classificação do conhecimento

Essa é a estrutura para classificar os documentos em uma biblioteca ou centro de documentação desde antes do livro.

As primeiras bibliotecas da humanidade nasceram muito antes do livro - tivemos blocos de argila, depois o papiro, a seda (principalmente na China), o pergaminho e por último o papel e o livro tal qual o conhecemos. A estrutura de organização do conhecimento nas bibliotecas é baseada em taxonomia.

Ontologia

Diferentemente da Taxonomia, a Ontologia não é uma estrutura hierárquica e sim associativa.

Ela agrega entidades de acordo as suas relações e atributos já preestabelecidos.

Enquanto a taxonomia verticaliza as estruturas, as ontologias as horizontalizam.

As ontologias funcionam de maneira muito semelhante ao nosso cérebro, relacionando, agrupando e classificando entidades. A complexidade está no fato de que pessoas diferentes pensam de formas diferentes. Se todos os usuários tivessem o mesmo padrão mental e mesma estrutura lógica de pensamento, não haveria a necessidade de testes de usabilidade, personas, focus groups e entrevistas.

Deste modo, o que fosse óbvio e claro para um usuário o seria também para todos. E sabemos bem que isso não é verdade!

A ontologia se comporta da mesma forma. Quando modelamos mapas mentais para a realização de um projeto ou proposta, é útil uma fase de brainstorm. E a partir dele são criadas as conexões e produzidos sentidos.

Diferente da taxonomia, a ontologia está voltada para o sentido das relações, mais do que puramente a estrutura hierárquica do que quer que seja.

Aplicadas ao GED nas empresas

Antes mesmo de definir como o GED será aplicado na empresa, é preciso mapear e modelar os processos da organização. Mas o que são processos?

Em Administração temos um modelo de gestão por processos, que é a visão da organização como um todo e maior relação entre os diferentes agentes da cadeia de valor.

Os processos equivalem aos setores e departamentos da organização ou empresa. Financeiro, Comercial, Produção, Materiais, Logística etc são processos e precisam ser modelados e mapeados, a fim de obtermos um “retrato fiel” da empresa. Somente depois aplicamos modelos de estruturação e organização da informação.

Em Arquivologia essa etapa corresponde à organização por Fundos Arquivísticos, ou seja, a procedência dos recursos informacionais com os quais estaremos lidando, sem misturá-los.

Conhecer a empresa e o funcionamento de seus processos individualmente dá mais propriedade no momento de definir qual o método mais apropriado de estruturação da informação para implantar um sistema de GED, se taxonomia e sua hierarquia vertical, ou a ontologia aplicada com associações horizontais.

O GED é uma forma de gerenciar o fluxo de trabalho e tem como condição necessária que os processos (e o fluxo de cada processo) sejam conhecidos por todos os envolvidos.

Tesauros, folksonomia e uma ajudinha da usabilidade

Cada uma das soluções (uso de tags ou vocabulário controlado) tem pontos fortes e fracos. Melhora muito quando é acrescentada a indexação com usabilidade, com proposta de sugestões e boa arquitetura de informação.

Focando os dois lados da organização da informação na web, temos a cruz e a espada: se de um lado temos as tags (folksonomia), que permitem uma democratização e a ampliação nas possibilidades de busca e recuperação da informação, temos os problemas que ela causa, como polissemia, erros de grafia, flexões de gênero e número e duplicidade de termos, entre outros.

Defendo a ideia de que a folksonomia tanto pode levar a informação até o usuário quanto fazer com que este nunca encontre o que está procurando.

Por outro lado temos os tesauros (vocabulários controlados), que são cuidadosamente elaborados por profissionais para que o site e as informações que este contém mantenham uma unidade de termos e seja simples a “encontrabilidade” de informações. Porém os tesauros exigem que os profissionais sejam capacitados e dominem a linguagem do usuário.

Para isso é preciso que o profissional “traduza” o que o usuário quer dizer e monte uma árvore hierárquica de termos próximos, análogos e/ou relacionados, para que a busca seja eficiente. O grande problema dos tesauros é que este exige o usuário também conheça e domine os termos indexados (o que limita as possibilidades de busca do ponto de vista do usuário).

Geralmente o que o usuário está pesquisando não é algo que ele conheça bem; muito pelo contrário, ao entrar num site o usuário está buscando justamente aquilo que não domina ou não conhece bem. Como podemos exigir então que ele saiba os termos que descrevam o conteúdo daquilo que está buscando?

Cada uma das soluções (uso de tags ou vocabulário controlado) tem pontos fortes e fracos. Um exemplo que eu sempre recomendo aos meus colegas é o do Google, Você pode pesquisar Jornal na Intnet (com erro de grafia mesmo) e ele retorna os resultados: Você quis dizer Jornal na Internet? E no final da página têm-se:

“Pesquise também: Jornal On-line, Jornal na Web, além de publicidade: Adquira jornais com o menor preço”.

Analisando a estrutura acima temos uma referência cruzada que remete de um termo não usado para o termo utilizado pelo sistema (como nas bibliotecas), e simultaneamente temos o feedback de outros termos que se relacionam com o termo pesquisado.

Resumindo: indexação com usabilidade e boa arquitetura de informação é isso! Não forçar o usuário a decorar termos, retornar os resultados e trazer variações desses termos, além de propor sugestões. Não devemos ser inimigos da usabilidade tampouco dos nossos usuários, afinal o arquiteto de informação, o bibliotecário e os profissionais de TI estão a serviço da clareza e da organização da informação.

E quanto menos o usuário perceber os passos realizados pelo mecanismo de busca do site, e quanto menos for evidente a arquitetura de informação e os processos internos de classificação, catalogação e indexação, mais eficiente e eficaz será o site.

Afinal do que adianta dizer ao usuário que “a pesquisa não encontrou nenhum documento correspondente”?

Biblioteconomia: o outro lado da força


A Biblioteconomia é a ciência que estuda os aspectos do uso e da disseminação da informação através de serviços e produtos informacionais. Esta ciência reúne uma serie de técnicas e procedimentos, para gerenciamento de informações, nos mais diversos espaços. Etimologicamente Biblioteconomia é a junção de três palavras gregas: biblíon (livro) + théke (caixa) + nomos (regra), ou seja, “conjuntos de regras de acordo com as quais os livros são organizados em espaços apropriados”.

Palavras e significados fazem com que a Biblioteconomia carregue uma série de estigmas que acabam por limitar o seu campo de atuação e de seus profissionais; comumente costuma-se associara imagem do bibliotecário a de um profissional que passa todo arrumando livros nas estantes. O que é uma grande inverdade, já que o profissional de Biblioteconomia é um gestor de informações que passa anos de sua vida estudando formas de levar a informação correta em tempo hábil para que seus usuários saiam satisfeitos e com suas dúvidas resolvidas.

A Biblioteconomia é uma ciência milenar que sempre atuou dando suporte as demais áreas do conhecimento. Como imaginar a ciência sem informação? O que seriam das pesquisas científicas sem o apoio informacional das bibliotecas e centros de documentação e/ou informação?

Mas se a Biblioteconomia é tão importante e funcional para as outras ciências então por que ainda existem os rótulos e os preconceitos com os profissionais da área? Não vou cair no mérito da questão se o bibliotecário é ou não valorizado na sociedade atual, pois, acho essa uma discussão antiga e até mesmo caduca. A valorização vem do empenho dos profissionais e da contribuição social da área.

Mas retornando a pergunta anterior por que então a Biblioteconomia fica à sombras das outras ciências? Vou arriscar uma resposta: Os modelos atuais de graduação em Biblioteconomia ainda são arcaicos e deixam de focar pontos importantes a formação do bibliotecário, como podemos pensar em sociedade da informação, sociedade em rede ou sociedade do conhecimento sem preparar os profissionais da informação para atuarem na web? A internet é uma importante disseminadora de informações e não respeita o limite espaço-temporal, mas onde estão os bibliotecários na web? Onde está a aplicação do “profissional que gerencia a informação em qualquer lugar independente do suporte”?

Arrisco a dizer que a Biblioteconomia só irá sair do lado obscuro da força, quando perceber que a internet é muito mais que uma ferramenta, e sim uma poderosa aliada e também um grande desafio.

A nova geração de usuários tem uma afinidade enorme com sistemas computacionais e com o ambiente web, e toda essa afinidade fez com que eles aprendessem a utilizá-la efetivamente.

Por isso para nós que somos profissionais da informação é inconcebível não determos o conhecimento mínimo sobre internet para auxiliarmos nossos usuários. Esses jovens e adolescentes têm a sua disposição um volume inimaginável de informações com apenas um clique. Por isso os modelos atuais de gerenciamento de informação possivelmente não irão satisfazer as suas necessidades informacionais e de entretenimento.

O que precisamos para ganhar notoriedade em nosso trabalho é mudar o conceito que sem tem sobre o bibliotecário adotando uma postura mais versátil e moderna que não apenas acompanhe as mudanças, mas também se antecipe a elas.

O que a sociedade do conhecimento precisa é cada vez mais de Bibliotecários Virtuais, Web Searches, Gestores de Conhecimento, Arquitetos de Informação, Gestores de Sistemas de Informação, Mediadores da Informação, Analistas de Informação na web e fora dela. O trabalho nas bibliotecas é importantíssimo, mas, este representa apenas uma vertente do trabalho dos profissionais da Biblioteconomia.

Precisamos ir mais além...

Bibliotecários de todo o universo, a força está com vocês! E vocês de que lado estão?


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